Resenha IV
“DESCAMINHOS
DA EDUCAÇÃO PÓS-68”
(Bento
Prado Júnior)
1)
Panorama estrutural do texto.
Caminhos e
Descaminhos da Educação pós-68. Bento Prado Jr. Afirma a existência de uma
reflexão profunda filosófica-pedagógica sobre a educação no Brasil e com
relevância afirma numa volta inconsciente ao passado longínquo do século XVIII.
Reflexão esta que
provoca os especialistas da educação a ficaremm atônitos e chocados com a
“promessa da efetivação da República (Res=coisa Pública)” no Brasil, cuja
republicanização ainda não é efetiva, porque nenhuma proposta coerente e
concisa vindo da esquerda para ocupar o “lugar ideário liberal”. Como Pedro
afirma: “sem apresentar qualquer
proposta, nós nos limitamos a ressaltar dificuldades que não podemos ignorar”.(PRADO,
p.30)
Analisando o texto em
partes, podemos dividir em 4 partes:
· a) Bento estabelece uma ponte, fazendo uma
viagem do passado ao presente, construindo um elo entre o século XVIII e XIX
até o presente que seria com a data de 1961;
· b) Num segundo momento, mostra o ano de 1968
como um ano de ruptura e mudanças de paradigmas nacionais e internacionais, ano
este que chega as obras de Michel Foucault; e no Brasil surge o conceito de
“Universidade Critica”, mas vejamos, não é uma ironia afirmar que a
Universidade cuja essência é desenvolver a consciência critica do saber como um
todo? Então, como afirmar “Universidade Critica?” É uma redundância apenas ou
mostra uma esquerda já fracassada com seus projetos políticos-pedagógicos?
Bento neste momento apresenta de uma
maneira critica, a quantas andas nossa educação? E ele faz um elo entre Michel
Foucault e Friedrich Nietzche, uma conexão de dois importantes pensadores que
conjugam com mesma filosofia de ver o mundo e a sociedade e, principalmente o
campo da educação.
· c) Num terceiro momento, Bento apresenta
criticas construtivas, ou seja, positiva (a obra de Bourdieu e Passeron)
chamada “A Reprodução”, explicando a
ruptura que possibilita uma discussão fértil sobre a educação, diferentemente
dos pedagogos que distorcem o sentido da obra, o qual seu significado é
relevante para o campo da educação.
· d) Num quarto momento, o que mais chama atenção
para Bento Prado Jr., como um filósofo que é em sua formação acadêmica, ele não
perdoa às esquerdas brasileiras em consistir numa teoria salvacionista da
educação, ou seja, não fazer uso indébito dos pensadores como a distorção do
conceito do “intelectual orgânico” de
Gramsci. Bento analisa os argumentos do pensamento pedagógico progressista (das
esquerdas), sistematizando a critica indevida de Gramsci conforme está na
página 27 do Texto feita pela esquerda, apropriando-se de um conceito fora de
contexto, afirmando com veemência que a missão da educação e da escola na
sociedade é “salvar” os alunos pela
educação.
2)
Desenvolvendo os Tópicos da reflexão crítica
do texto. “Antes-68”
Bento inicia seu texto com uma
viagem do passado ao presente, fundamentando-se com Antonio Cândido (PRADO,
p.10) dizendo:
A partir do século XVIII
as ideologias do progresso forjaram a imagem de um homem perfectível ao
infinito graças à faculdade redentora do saber. Era como se a mancha do pecado
original pudesse ser lavada e o paraíso, em vez de ter existido no passado,
passasse a ser uma certeza gloriosa do futuro.
Ou seja, como se a educação fosse
uma panacéia das ideologias do progresso como fundo filosófico. A escola não
salva, como tirando a mancha do pecado original (a ignorância), tal ignorância
que é altamente contestada por pensadores na época como Nietzche, a educação é
um processo interminável, não uma “Formação”
do individuo na sociedade, como se fossemos máquinas como pensamento moderno
insinua em seu bojo com René Descartes afirmando que o homem é uma máquina;
não, definitivamente não. A educação é construção, processo, é desafio.
As ideologias do progresso
pensavam no mito da “boa escola” como outro pensador brasileiro que comunga com
esta ideologia é Anísio Teixeira, um defensor; mas tais ideologias eram e ainda
são destoantes de nossa complexidade vivida de fato, cotidianamente. De certo
modo, estas ideologias com fundamento vindo do “Iluminismo”, com o fim último
da exaltação da razão como suprema e perfectível, assim como é a ideologia do
progresso.
A pergunta é: “O iluminismo trouxe
luz ou escuridão? Trouxe aproximação do real ou da ilusão?”.
Segundo Bento e outros filósofos,
não, trouxeram sim, um modelo salvacionista-religioso de educação. Por fim, ele
nesta primeira parte contextualiza o “antes-68”
até 1961, O Brasil nesta época não é tão diferente da França (Europa), pois
comungam da mesma ideologia.
Pensando no ano de 1968, é o ano
de ruptura e mudanças de paradigmas nacionais e internacionais. Bento apresenta
o conceito de “Universidade Critica”, cujo assunto já discorremos na página
anterior, demonstrando que a esquerda é caracterizada como um “falso pessimismo dos filósofos” (PRADO,
p.15), afirmando que “a escola que
dispomos não funcionará, não tem conserto, seria melhor fechá-la” (PRADO,
p.14) e, Bento retorna na página seguinte (PRADO, p15):
A escola, esse espaço
privilegiado e acolhedor que até então era visto como a melhor área para um
feliz encontro entre letrados de boa vontade e jovens sadios e sedentos de
saber, uns e outros preocupados com o advento de uma sociedade justa, passou a
ser visto como uma máquina infernal a serviço do status quo.
Portanto, a “Universidade
Critica” é um pseudoconceito criado pela esquerda a fim de mascarar um
socialismo ‘barato’, afirmando que a ‘escola’ não serviria mais, deixando a
abertura ao ensino privadocapitalista com suas idéias liberais.
Bento Prado Jr., utiliza como
fundamento filosófico de sua critica às ideologias do progresso, dois
pensadores de peso: ‘Michel Foucault’ e ‘Friedrich Nietzche’.
Michel Foucault discípulo da
filosofia de Nietzche criticava assim como o próprio Nietzche veemente as
teorias salvacionistas – “as ideologias do progresso”, o qual explicitava o
conceito de verdade em sua obra (Apud
FOUCAULT, M. “Microfisica do Poder”.ed. Graal, p.14)(PRADO, p.18) ,dizendo que:
A verdade está
circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos
de poder que ela induz e que a reproduzam. ‘Regime’ da verdade [...] O problema
não é mudar a ‘consciência’ das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o
regime político, econômico, institucional da produção da verdade [...] Em suma,
a questão política não é o erro, a ilusão, a consciência alienada ou a
ideologia: é a própria verdade.
A primeira indagação é: Qual é o
conceito de verdade? Respondendo de maneira foucaultiniana, diria que a verdade
é moldada a bel prazer das instituições como a escola com meandros da vontade
de interesse como afirma Nietzche e Foucault como vontade política de interesse
como descreve em sua obra “Microfisica do Poder”, o que acontece no micro
reflete no macro.
Portanto, nesta segunda parte do
texto de Bento explicita as ideologias do progresso, o “dês-conceito” de
“Universidade Critica” no Brasil pelas esquerdas e fundamenta em Foucault e
Nietzche com um conceito de verdade, isto é, se existe?
Depois da critica aos ideólogos
do progresso, Bento quer corrigir os pedagogos que fazem uma leitura precária
sobre uma obra de extrema relevância para a educação no Brasil, que é “A Reprodução” de Bourdieu e Passeron.
Os pedagogos liberais
dogmatizaram a obra deles descrevendo como função reprodutiva da escola, o
aluno tem que reproduzir, ou seja, copiar o conhecimento passado pelo professor
e pronto. A versão mais profunda que deveria ser olhada tal obra, como ele
mesmo afirma: “A Reprodução é uma obra
que dá o que pensar, tanto ao nível de uma teoria geral da educação”.(PRADO,
p.20)
Todavia, os pedagogos fizeram uma
leitura muito superficial da importante obra de Bourdieu e Passeron (A
Reprodução), cujos especialistas em educação no Brasil tomam rumos de
desconstrução das instituições pedagógicas, como Bento (PRADO, p.22) afirma
novamente:
Tudo se passa como se a
descrição da educação como a “reprodução”, essa liturgia ou esse teatro de que
tomamos consciência recentemente, fosse uma evidência imediata para autores de
há um século.
Ainda apresentando ‘erros’ ou
‘visões de mundo’ superficiais segundo Bento Prado Júnior, um deslize como ele
diz como graves conseqüências que às esquerdas intelectuais inferem
equivocadamente sobre o conceito de “intelectual orgânico” de Antonio Gramsci,
como ele (PRADO, p.27) afirma:
E o deslize em questão
não é o primeiro, já que tem sua origem, em alguns casos, num outro equivoco,
isto é, numa má leitura dos livros de Gramsci [...] o que quer ser uma ‘análise
concreta de uma situação concreta’ é transformado em “doutrina” ou num pensamento,
‘prêt-à-porter’, o que é uma escrita
viva “em situação” é mumificado e reduzido a alguns poucos princípios
abstratos, universalmente aplicáveis.
Bento até então, diz que são
confusões conceituais que só interessam aos filósofos, mas “o mais grave é quando esse discurso unidimensional transposto, tal e
qual, para o campo da educação, promovendo toda uma série de identificações
esdrúxulas: escola-partido, professor intelectual-orgânico, aluno-massa”.(PRADO,
p.29).
No entanto, é preciso atentar
quais são as “visões de mundo” que discorremos e adotamos? Sem demagogias
intelectuais filosóficas, mas de dar possibilidade e posicionar a educação no
campo da complexidade em que ela realmente está inserida, e não se retirar do
social dizendo social.
3)
Conclusão Critica.
Primeiramente quero concluir de
maneira critica começando pelo próprio título da obra: Descaminhos da educação pós-68, assim intitulado pelo autor, mas
deveria ser: Caminhos e Descaminhos da
Educação (antes-durante-pós-68), reiterando assim de maneira coerente e
concisa com seu próprio conteúdo: o texto.
Por que?
Sua critica às “ideologias do
progresso” com suas “teorias salvacionistas” da educação, que apresentam o mito
da ‘boa escola’, da “formação”, etc; cuja critica eu concordo, mas no momento
que foi estabelecida a critica não existia outra proposta política-pedagógica
para o Brasil. As ideologias vinham da Europa, ainda hoje, é valorizado assim,
ou seja, o que vêm do exterior é melhor do que temos, assim acomodamos numa pseudonecessidade
de filosofias “consagradas” internacionais, e os pensadores brasileiros, onde
estão?
O que quero expressar é, que as
“ideologias do progresso” foi a única forma, maneira, visão de mundo que
tínhamos, como então criticar o que tínhamos como única opção? Pois, teríamos
intelectuais com propostas viáveis ao nosso contexto problemático
sócio-políticos até os nossos dias de hoje?
Parece-me que ainda não temos,
pois é o “intelectual” ‘não’ orgânico é crescente e desesperador invertendo o
conceito de Gramsci.
A critica deve sempre ser
construtiva, um posicionamento frente uma problemática com um ponto de partida
para uma possível solução no campo da educação. Bento Prado Jr. não vê que não
se há outra saída e aceitar consciente as “ideologias do progresso”, porque não
se tem outra no Brasil, até então.
Prof. Sérgio Augusto Moreira - SAM
Bibliografia:
In: PRADO Jr.,
BENTO et al. Descaminhos da Educação pós-68.
São Paulo: brasiliense, s/d.
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