Resenha IX
“Propostas do Banco Mundial para a Educação”.
(José Luis Coraggio)
O Banco Mundial está fortemente
comprometido em sustentar o apoio à Educação, a contribuição mais importante do
Banco Mundial deve ser seu trabalho de assessoria, concebido para ajudar os
governos a desenvolver políticas educativas adequadas às especificidades de
seus países.
É urgente saber quais os limites
e as possibilidades ainda inexploradas dessa relação entre o Banco Mundial, os
governos e as sociedades da América Latina, porque dela continuarão decorrendo
as políticas educativas capazes de promover ou bloquear o desenvolvimento
sustentável de nossas sociedades.
Argumentamos que o Banco Mundial
propõe aliviar a pobreza por meio de medidas que, se forem efetivamente
implementadas, contradizem seu objetivo de minimizar o gasto público. Neste
contexto, questionamos a tão pretendida eficiência da focalização na pobreza e
sustentamos a necessidade de outro enfoque do desenvolvimento.
As políticas sociais estão
orientadas para dar continuidade ao processo de desenvolvimento humano que
ocorreu apesar da falência do processo de industrialização e desenvolvimento
econômico.
As políticas sociais – seja por
razões de equidade ou de cálculo político – estão direcionadas para compensar
conjunturalmente os efeitos da revolução tecnológica e econômica que
caracteriza a globalização.
As políticas sociais atuais são,
portanto, o resultado não apenas da avassaladora iniciativa das forças inspiradas
pelo novo conservadorismo de direita, como também da ausência de iniciativa e
do comportamento defensivo das outras forças sociais e políticas, o que nos
torna responsáveis por avançar além da denúncia estigmatizadora ou da crítica
ideológica.
A idéia do êxito, para
indivíduos, setores sociais e países, não suõe a cooperação ou a solidariedade,
mas o triunfo na competição com os outros. Ser competitivo significa ter a
capacidade de passar pelas provas que o mercado impõe, respondendo rápida e
eficientemente às suas mudanças.
Na América Latina, a tentativa de
se conseguir a competitividade por este caminho está promovendo uma revolução
cultural e institucional que inclui, entre outras regras do “bom governante”.
O poder dos organismos multilaterais sobre os
governos dos países em desenvolvimento é exercido menos por seu aporte
financeiro; o fator decisivo é a sua capacidade de interferir nas relações
econômicas internacionais.
Como em toda época de transição,
faltam dados para explicar e prever com um mínimo de confiabilidade o movimento
do conjunto da economia, da sociedade e da política.
Embora o Banco Mundial sustente
oficialmente que “ o marco das instituições políticas e econômicas é importante
porque as políticas para reduzir a pobreza implicam em um trade-off, postula-se
que o referido trade-off não é principalmente entre crescimento e redução da
pobreza mas, “especialmente a curto prazo, entre os interesses dos pobres e os
dos não-pobres”.
O Banco considera “o investimento
em educação como a melhor forma de aumentar os recursos dos pobres”.
Trata-se de prevenir situações
politicamente críticas – tanto nas dezessete mega-cidades do mundo em
desenvolvimento como em suas regiões rurais superpovoadas – que poderiam
colocar em risco a sustentação política do ajuste estrutural.
Os trabalhadores da América
Latina, desde os níveis de renda mais baixos até os médios, lançados no mercado
mundial de trabalho, devem renunciar às leis que os protegiam e competir,
simultaneamente, com os trabalhadores mais baratos e mais destituídos de
direitos humanos e com os mais capacitados do mundo, que contam além do mais –
como uma infra-estrutura de apoio de ponta.
As novas políticas sociais se
caracterizam pela expressão “para todos”: saúde, água, saneamento e educação
para todos. Mas não incluem empregos nem, portanto, renda para todos.
Em essência, a focalização pode
acabar significando uma redistribuição de recursos públicos dos setores médios
para os pobres, acompanhada de uma redução na qualidade e complexidade dos
serviços públicos.
Mas, ao se transformar em uma
categoria central e tão abrangente das políticas públicas nacionais e
internacionais, a competitividade perde sua precisão econômica e torna-se um
conceito cujo sentido é matéria de reflexão. Dependendo do conceito de
competitividade que se adote, certas políticas sociais (e econômicas)
resultarão mais eficientes que outras.
O desenvolvimento humano não pode
ser visto como um resultado possível da competitividade, mas como condição
desta.
A teoria econômica neoclássica
também tem um modelo macroeconômico aplicável ao campo da educação como um
todo. É um modelo que, basicamente, pretende explicar as variações da renda
nacional usando a denominada “função de produção” agregada.
Hoje o Banco Mundial propõe as
coisas deste modo: “A educação é o instrumento principal para promover o
crescimento econômico e reduzir a pobreza (...) A educação em todos os níveis
aumenta o crescimento, mas a educação sozinha não gera crescimento. O
crescimento requer não apenas investimento em capital humano, mas também em
capital físico; ambos os tipos de investimento dão sua maior contribuição ao
crescimento em economias abertas, competitivas e que estão num equilíbrio
macro-econômico”.
O Banco sabe que, devido ao princípio geral de que os recursos são
escassos, todo país deve realocar recursos públicos da educação superior e
técnica para a educação básica, e utilizar sua capacidade limitada de subsídio
exclusivamente àqueles alunos que, estando capacitados para aprender, não podem
pagar por sua educação. O Banco sabe
que isto satisfaz também o objetivo de reduzir a pobreza, porque os pobres mas
podem freqüentar o ensino de primeiro grau, e nele se concentrarão os recursos,
e porque o Banco sabe que o principal
recurso dos pobres é a sua capacidade de trabalho, que aumenta com a educação.
O Banco sabe que é conveniente que os estabelecimentos educacionais sejam
avaliados por seus resultados em termos do aprendizado dos alunos, e por sua
eficiência em termos de custo por diplomado. O Banco também sabe que, para incentivar as inovações e
a eficiência, deverão ser introduzidos mecanismos de concorrência por recursos
públicos que reproduzam a concorrência no mercado por recursos privados.
O Banco sabe que é preciso capacitar o corpo docente, mas mediante
programas paliativos em serviço, porque não é eficiente investir mais na sua
formação prévia. Sabe também que,
reduzir a menos de 40-50 o número de alunos por professor ou aumentar os
salários dos professores não contribui de forma eficiente para a melhoria do
aprendizado.
Conclusão
Pessoal
Se o Banco já sabe o que vai nos aconselhar em todos
esses casos, que autonomia resta a cada governo no momento de negociar as novas
políticas educativas a serem financiadas, e qual a autonomia de cada diretor de
escola para selecionar os “insumos educativos”?
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