Resenha V
Leituras Sociológicas e
Filosóficas da Educação
Ao iniciar esta reflexão destas
leituras sociológicas sobre o campo educacional, é relevante ter como ponto de
partida, pensadores que já esboçam cientificamente seu pensamento sociológico
em realidade brasileira, como uma tentativa de libertar de uma cultura
etnocêntrica intelectual-científica, que domina e aprisiona os intelectuais em
potencialidade ao refletir sobre questões sociais e, principalmente, refletir a
educação num plano das instituições como: A Escola, e a Universidade, aquela
que detêm o poder por meio de políticas mesquinhas de “enquadramento” como eu
chamaria, o qual Michel Foucault chamaria de “Corpos Dóceis”.
Carlos Alberto Máximo Pimenta (2004,
pg. 188) diz:
Vislumbrar
a educação como um caminho possível para o aprendizado da ordem social adulta
ou para a consolidação de sujeitos autônomos e conscientes requer um esforço
cientifico de desnudamento da realidade social e escolar.[1]
A educação como caminho para
entender o social é um complexo que possibilita em seu bojo, aprofundar o que é
um sujeito autônomo e consciente de sua subjetividade na coletividade
integrando e relacionando-se com os outros sujeitos conscientes e autônomos,
como diz o autor, é preciso muito esforço não só cientifico, mas eu diria até
um esforço ontológico do sujeito em seu processo educacional para desnudar-se
sim de todas ideologias conflitantes e “adestradoras”, como diria Theodor W.
Adorno, das relações de poder entre dominador e dominado numa concepção marxista
ou a dialética do “Senhor e do Escravo” de Hegel, ou os “Corpos Dóceis” de
Michel Foucault pelas instituições, que no caso referimo-nos a realidade
escolar.
O complexo social está num
emaranhado de ideologias a favor das instituições e também trabalhando o
cotidiano escolar, entre a função da escola e a educação em ação o em processo.
Émile Durkheim expressa a sua
“boa” intenção em seu contexto histórico-social em definir a educação, mas como
definir a educação partindo do pressuposto que ele mesmo afirma que a natureza
humana numa concepção aristotélica “o homem é um ser social”, ou seja, sua
natureza é conflitante, diversa, complexa e única a cada sujeito pensante, como
então padronizar socialmente a educação?
Ele define assim (1978 pg. 33):
A
educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não
se encontrem ainda preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e
desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e
morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio
especial a que a criança, particularmente, se destine.[2]
Esta tendência positivista
comteana, salvacionista da educação que Durkheim adota em sua época é até aceitável,
pois o positivismo estava em ebulição, em sua efervescência intelectual. Mas
ver a educação numa perspectiva científica, padronizada por uma definição não é
o melhor caminho, o conceito de educação é construído por processos e fases
históricas em seu contexto epocal numa perspectiva marxista, ela está num
constante devir, mudança como diria o pré-socrático Heráclito.
Analisando como ele conceitua a
educação, é fácil perceber a imposição social exercida sobre as gerações
adultas, ou melhor, sobre o que as crianças “tem” que aprender para inserir-se
na sociedade.
Durkheim (1978, pg. 34) ainda
afirma: “Nem todos somos feitos para
refletir; e será preciso que haja sempre homens de sensibilidade e homens de
ação.” Mas será mesmo que não somos feitos para refletir? Devemos então
aceitar o que nos é imposto pela sociedade? Como afirma Durkheim, nem todos
somos feitos para refletir. A reflexão está inata em qualquer ser humano e,
quanto mais você exerce e pratica esta virtude intelectual como diria
Aristóteles em seu tratado de ética, mais você torna-se humano. E ainda mais
para Theodor W. Adorno nos diz a educação ela em sua essência ou aparência deve
promover a “emancipação” do sujeito e não promover a barbárie, o qual talvez seja
este caminho que Durkheim promova, sendo que a sociedade sobrepõe a criança,
dizendo seus limites e as regras do jogo da vida social, ou melhor, ainda, como
“adestrar” a criança em seu meio que vive, tornando-se um individuo social
adulto.
Michel Foucault ao contrário de
Theodor W. Adorno chamaria isto de “docilidade” em doses homeopáticas inserindo
o “indíviduo” no social, o qual não se questiona, apenas segue, por isso, Foucault
apresenta-nos (1987 pg.118):
É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser
utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado [...] nesses esquemas de
docilidade [...] o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes;
em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados,
que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações.[3]
Foucault esclarece que a
instituição seja qual for ela, inclusive a escola, o adestramento dá-se pelos
corpos, são domesticados e não educados. Exemplos: temos dentro da realidade
escolar como domesticar os corpos pelas filas antes de entrar na sala de aula,
nunca questionar o professor, ou seja, perguntas não existiam, o conhecimento
do professor não era questionado, o aluno tinha posições corretas para melhor
aprender, ou seja, prender a criança na carteira, o hino nacional, formar fila,
ou seja, no sentido igualar todos no mesmo patamar de docilidade irracional.
Foucault com certeza não concorda
com Durkheim a respeito do conceito de educação, pois para ele isto é “inculcação”
institucional positiva social.
Ampliando nosso arcabouço destes
intelectuais que discutem sobre a educação no social, Pierre Bourdieu com
fundamentos em Marx, nos mostra sobre esta tal “inculcação”, o qual ele chama
de “inculcação do arbitrário cultural” com
o capital humano cultural.
A escola perante o arbitrário
cultural é mais ainda conservadora do que antes, promovendo as desigualdades
sociais, como ele mesmo inicia seu texto (1966 pg.41):
É provavelmente por um
efeito de inércia cultural que continuamos tomando o sistema escolar como um
fator de mobilidade social, segundo a ideologia da “escola libertadora”,
quando, ao contrário, tudo tende a mostrar que ele é um dos fatores mais
eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às
desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado
como dom natural.[4]
A inércia cultural com um fator
de mobilidade social parece contraditória, mas é isto chamamos de arbitrário
cultural, pois é na aparência da eficiência de conservação social é que se
legitima as desigualdades sociais, tratando como algo natural.
A escola acaba sendo o “local”
das ideologias dominantes para transmitir a “inculcação”, numa pseudoconservação
social, é o meio da “inculcação” dos arbitrários culturais.
E em nome de uma cultura
institucional, Pérez Gómez, com um termo preciso: a “eficiência”, é ideologia
do neoliberalismo dentro da cultura escolar como ele mesmo afirma (1995 pg.134):
“situa o sistema educativo e a
instituição escolar no olho do furacão das puras exigências econômicas da
política neoliberal”.[5] Institucionalizaram
a eficiência em âmbito escolar.
Portanto, em conclusão, digo
conjuntamente com o autor Carlos Alberto Máximo Pimenta, vislumbramos a
educação num caminho de possibilidades sem possibilidades, na certeza da
incerteza, no arbitrário cultural, nos corpos dóceis, na “definição da própria
educação”, encontramos num beco sem saída ou num turbilhão de possibilidades da
eficiência? E que eficiência é esta?
Bibliografia:
PIMENTA, Carlos Alberto
Máximo. Formação de professores e campos
do conhecimento - “ Um breve olhar da
sociologia à Educação. Cecília Pescatore Alves e Odair Sass – organizadores.
São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia – Cap. I – “A
educação – sua natureza e função”. Émile Durkheim: com um estudo da obra de
Durkheim pelo Prof. Paul Fauconnet. Tradução do Prof. Lourenço Filho. 11ª
edição. São Paulo: Melhoramentos : [Rio de Janeiro] : Fundação Nacional de
Material Escolar, 1978.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão.
Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis : Vozes, 1987. Do original em francês:
Surveiller et punir.
BOURDIEU, Pierre. “L’école conservatrice. Lês inégalités
devant l’école et la culture”. Publicado originalmente in Revue française
de sociologie, Paris, 7 (3), 1966, p.325-347.
GÓMES, Pérez. A cultura escolar na sociedade neoliberal –
Cap. 3 – A cultura institucional.1995.
[1] PIMENTA,
Carlos Alberto Máximo. Formação de
professores e campos do conhecimento - “
Um breve olhar da sociologia à Educação. Cecília Pescatore Alves e Odair
Sass – organizadores. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
[2]
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia –
Cap. I – “A educação – sua natureza e função”. Émile Durkheim: com um
estudo da obra de Durkheim pelo Prof. Paul Fauconnet. Tradução do Prof.
Lourenço Filho. 11ª edição. São Paulo: Melhoramentos : [Rio de Janeiro] :
Fundação Nacional de Material Escolar, 1978.
[3]
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir:
nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis : Vozes,
1987. Do original em francês: Surveiller et punir.
[4] BOURDIEU, Pierre. “L’école conservatrice. Lês inégalités devant l’école et la
culture”. Publicado originalmente in Revue française de sociologie, Paris,
7 (3), 1966, p.325-347.
[5] GÓMES,
Pérez. A cultura escolar na sociedade
neoliberal – Cap. 3 – A cultura institucional.1995.
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