Resenha VII


“Interpretações de um Brasil: B-R-A-S-I-L”;
segundo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

              A História do Brasil é como um quebra-cabeça infinito o qual vai se encaixando peça a peça, e por falar neste país pluricultural, Freyre e Sérgio nos contribuem com interpretações distintas e contextualizadas em sua epocalidade, mas o que há convergente em suas interpretações é à busca da identidade do Brasil, O que é o ser brasileiro? Qual é a sua identidade? No entanto, até hoje, estamos nesta busca incessante, o qual culmina com o pensamento dos dois autores, em dizer que: “A essência do povo brasileiro é o antagonismo”.
              Introduzindo esta reflexão, apresento de maneira simples a vida de cada um destes autores: Freyre e Sérgio, comentando dialeticamente a vida, obra e o pensamento deles, o seja, vou-me inserir nesta interpretação, mas com certeza com uma leitura pobre.
              Gilberto Freyre tem sua formação fundamentada com um professor chamado Franz Boas, o qual conclui o Mestrado em Ciências Sociais. De maneira sintética, a teoria antropológica de Boas é o conceito antropológico multilinear entre a raça e a cultura, ou seja, Boas separa a raça da cultura, devemos analisar o fenômeno raça separado do fenômeno cultura, pois cada uma tem sua conotação. E é por este viés que Freyre parte sua reflexão da identidade brasileira, diferentemente da visão aristocrática ariana de Oliveira Viana, sendo que apresenta, desenha um Brasil com tendências européias (portugueses), etnocêntricas, etc.
              Freyre fundamentando em Boas desenvolve sua teoria da herança cultural e herança étnica:

O que se sente em todo esse desadoro de antagonismos são as duas culturas, a européia e a africana, a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português...[1]



              Neste trecho da obra de Freyre, começa a explicitar a gênese do antagonismo brasileiro no antagonismo português, o pluriculturalismo existente em nosso país já vêm dos portugueses, como ele mesmo vai afirmar continuando o texto:

Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismos.[2]

              A gênese brasileira é assentada sobre a conciliação dos antagonismos como nos afirma Freyre, e esta é a tese dele: O que é afinal, ser Brasil? Qual a essência do povo brasileiro?
              Inicia-se com os colonizadores portugueses com a missão religiosa da “Igreja Católica” segundo a Doutrina que foi discutida no Concilio no Vaticano, Portugal é única nação que segue literalmente as diretrizes do Cristianismo pós-Concilio no Brasil. Os colonizadores vêm catequizar este mundo “selvagem” como eles missionários jesuítas afirmam, catequizar os índios “selvagens”. Será que os índios têm alma?
              Mas em contrapartida, o próprio português que leva a bandeira da missão de catequizar em nome da Igreja Católica, dizima milhares de índios que defendem a sua cultura milenar... Como nos afirma, Capistrano de Abreu:

Compensará tais horrores a consideração de que, por favor, dos bandeirantes pertencem agora ao Brasil às terras devastadas?[3]

              Considerando que os bandeirantes correm sangue dos portugueses, e imposição etnocêntrica ariana religiosa é posta com toda força. Então, os colonizadores precisam povoar o território, então começa outra problemática, “a miscigenação”.
              Gilberto Freyre já nos afirma que o português já é mestiço, por isso facilita a mistura dos portugueses com as índias, o qual o resultado vai ser o mameluco:

... Os colonizadores encontrar parecido, quase igual, entre as índias nuas e de cabelos soltos do Brasil (...) além do que, eram gordas como as mouras. Apenas menos ariscas: por qualquer bugiganga ou caco de espelho estavam se entregando, de pernas abertas, aos “caráibas” gulosos de mulher.[4]

              Uma visão um tanto pré-conceituosa do autor Gilberto Freyre em relação as índias. Os portugueses que são intervencionistas na cultura indígena, é normal as índias ficarem nuas pois são filhas da Terra, da Natureza, as índias não eram oferecidas, mas sim com certeza foram molestadas pela então cultura etnocêntrica ariana européia com seus costumes “morais” católicos. Moral?
              Segundo Freyre, a moral católica portuguesa era entendida assim como sua gênese, a miscigenação, ou seja, o conceito de pecado, era flexível de acordo com a mistura de raças, o qual alguns afirmam que o resultado da miscigenação não é causa dos problemas sociais. Portanto, Freyre faz uma leitura precária sobre os índios, deixando a desejar neste capitulo da História brasileira.
              Por outro lado, o negro, os escravos começam substituir a mão-de-obra indígena, pois eles são difíceis de serem “domesticados”, mas o negro é bem valorizado na formação do povo brasileiro. “A casa grande & senzala” que é o local da mini-sociedade, fundamentada na família patriarcal, onde o comandante era os barões da raça ariana, e na senzala o “senhor do engenho”. E nesta mini-sociedade os negros faziam parte da vida da casa-grande, começam então a mistura dos colonizadores portugueses com os negros, com o resultado é os mulatos.

              Na Casa Grande & Senzala, segundo Freyre vai construindo o Brasil, cresce a cana-de-açúcar, o ouro e o café com a presença negra em Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O negro é quem construiu o Brasil afirma Freyre. Não podemos extremar a construção da identidade brasileira na cultura afro-brasileira, mas temos que ressaltar que os índios são filhos desta Terra, os portugueses também, como também os imigrantes que povoaram e construíram o Brasil, inclusive o negro.
              Esta sociedade patriarcal que se forma ao redor das “Fazendas”, o qual o comando vinha da raça ariana, o dono da fazenda, e suas respectivas hierarquias: mucamas, senhor do engenho, capitão do mato e a senzala. Lembrando que os escravos viviam nas senzalas, mas sempre com o intuito da liberdade, o qual surge a “Capoeira” uma luta-dança o qual os escravos rebelados se refugiam nos Quilombos, criando arte da Capoeira para se defenderem dos capitães-do-mato. O senhor do engenho é a autoridade e garante proteção e comida.
              Assim se constituía a concepção de Estado no Brasil dos brasis. O Estado brasileiro existia efetivamente em cada fazenda com suas determinadas leis econômicas, político-sociais e religiosas. A concepção do particularismo para o universal, da família para o Estado, que foi propiciado pelo cruzamento das raças, das relações sociais e sexuais das raças, estabelecendo as famílias como ponto fundante da sociedade patriarcal brasileira.
              Ainda hoje, vemos os “ransos” desta mentalidade patriarcal, provinciana, na política social econômica do Brasil, com a seguinte pergunta: Qual família é a sua?
              Portanto, Gilberto Freyre, interpreta o Brasil com as pluralidades culturais e da gênese social, concilia os antagonismos, nós somos um povo cuja nossa essência está no contraditório, este é o famoso “jeitinho brasileiro de ser”. O autor tem uma interpretação particularista, diferenciando assim das concepções positivistas etnocêntricas européias, conjuntamente com as teses evolucionistas do darwinismo social, como afirma Oliveira Viana em sua obra “A evolução do povo brasileiro”. Não somos mais crianças, já estamos terminando a nossa adolescência, entrando na vida adulta, nosso país, Brasil; já é hora de criarmos originalmente nossa visão e identidade brasileira.
              Complementando esta reflexão de Interpretações do Brasil.B-R-A-S-I-L. País este multifacetado política-economicamente, eis um dos grandes desafios dos políticos e intelectuais atuais, unificar esta nação que se chama Brasil, mas será? Porque somos formados na conciliação dos antagonismos, segundo Freyre.
              Segundo outro pensador brasileiro, Sérgio Buarque de Holanda, na continuidade da interpretação particularista de Freyre, nos apresenta sua interpretação do Brasil de forma Weberiana (Max Weber), demonstrando a sua neutralidade axiológica em sua obra, comporta-se como m observador e comenta as Raízes do Brasil, ou seja, traça e desenha o Brasil e sua identidade de maneira que não explicite seus valores, tentando ser imparcial. Mas é lógico, que mesmo tendo a intenção de neutralizar o seu ponto de vista, acaba dando seu ponto de vista, por isso não “existe a neutralização total em uma obra”.
              Sérgio Buarque não justifica a nossa História, a nossa identidade, mas descreve e relata a nossa História, nos apresenta as raízes, meandros da gênese brasileira, critica o Estado como intervencionista na luta pela identidade brasileira, mesmo participando dele em alguns cargos públicos.
              Em sua obra Raízes do Brasil, Sérgio nos mostra do que é constituído o nosso povo, quais os princípios que nos regem?

Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador.[5]
             
              Vimos também no texto, que este tipo “aventureiro”, o “seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore”.[6], ou seja, esse tipo ignora as fronteiras, eles querem descobrir novos horizontes e desbravar o mundo. Eles estavam interessados espoliar as terras brasileiras como ele mesmo nos afirma: “Recrutados entre aventureiros de toda espécie, de todos os países da Europa, homens cansados de perseguições, eles vinham apenas em busca de fortunas impossíveis, sem imaginar criar fortes raízes na terra”.[7]
              Os aventureiros só queriam as fortunas da terra e não ficavam assim comprometidos com a nação em que vivem, Brasil.
              Os trabalhadores que se atinham no trabalho da lavoura predatória, que geralmente eram feitos pelos negros escravos, cuja força era o próprio conceito de trabalho no Brasil, mas em contrapartida faltavam materiais para a lavoura.
              Sérgio nos apresenta o conceito antropológico brasileiro que é o do “homem cordial”, o qual representa os traços personalistas, vínculos de pessoas em suas comunidades, a cooperação autêntica entre os indivíduos, não tinham traços de “competição” e “rivalidade”, mas sim de cooperação e auxílio recíproco, fortalecendo assim as comunidades.

Conclusão

              Neste texto, mostro as convergências entre estes dois autores: Gilberto e Sérgio, e seus paradoxos da identidade do Brasil. Nenhum deles querem definir o que é o povo brasileiro? Mas desenhar a história contínua brasileira que sempre se inicia numa relação dialética constante dos fatos que se sucedem na nação brasileira.
              O grande desafio paradoxal é unificar o Brasil, uma mistura de raças, portanto, uma nova raça. Mas nada impede de fazermos nossas interpretações mediante a história, assim como foi feito neste singelo texto.

Bibliografia:

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala – Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 1. 45ª edição. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo. 2001. pg. 82.

ABREU, João Capistrano. Capítulos de História Colonial (1500-1800). 6ª edição. Revista e anotada. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. Brasília INL. 1976. pg. 103.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 25ª edição. José Olympio editora. pg.13.


[1] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala – Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 1. 45ª edição. Editora Record. Rio de Janeiro – São Paulo. 2001. pg. 82.
[2] Ibidem. pg. 82.
[3] ABREU, João Capistrano. Capítulos de História Colonial (1500-1800). 6ª edição. Revista e anotada. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. Brasília INL. 1976. pg. 103
[4] Freyre, Gilberto. Op cit. pg. 84
[5] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 25ª edição. José Olympio editora. pg.13.
[6] Ibidem, pg. 13.
[7] Ibidem, pg, 32.

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