Resenha VIII


“Os Espaços da Globalização” (Milton Santos)

           A globalização pode ser conceituada como um sistema – mundo, conjunto sistêmico que constitui um paradigma para a compreensão dos diferentes aspectos da realidade contemporânea.
         O espaço seria um conjunto indissociável de sistemas de objetos naturais ou fabricados e de sistemas de ações, deliberadas ou não, ou seja, o espaço como dinâmico e unitário, onde se reúnem materialidade e ação humana.
              Segundo Milton Santos afirma: (SANTOS, 1996, p.49) “Quanto às ações, tendem a ser cada vez mais racionais e ajustadas”. Ou seja, o autor concorda que o fenômeno da globalização tende cada vez mais a manipulação e a dominação dos indivíduos em seus espaços vividos localmente.
           O fenômeno da globalização parte dos seguintes pressupostos constitutivos da época: 1 – a unicidade da técnica; 2 – convergência dos momentos; 3 – unicidade do motor; como por exemplo: a instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares. Por isso, afirma Milton Santos: (SANTOS, 1996, p.50) “O mundo oferece as possibilidades, o lugar oferece as ocasiões (...) O processo de globalização acarreta a mundialização do espaço geográfico”.
      O meio utilizado pela globalização é chamado de meio cientifico técnico informacional, por que (SANTOS, 1996, p.51) “a ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as formas que participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies”.
             O espaço é o teatro dos fluxos com diferentes níveis, intensidades, orientações e direções. Existem fluxos hegemônicos e fluxos hegemonizados, fluxos mais rápidos e eficazes e fluxos mais lentos.
       Milton Santos mostra o poder dos espaços globalizados em dois conceitos: Horizontalidades e Verticalidades.
              Como ele mesmo afirma (SANTOS, 1996, p.54):

Horizontalidades e verticalidades dois conceitos que se criam paralelamente. As horizontalidades são o alicerce de todos os cotidianos (...) são cimentadas nas similitudes das ações. As verticalidades agrupam áreas ou pontos, ao serviço de atores hegemônicos não raro distantes.

                A horizontalidade é o substrato dos processos da produção propriamente dita, da divisão territorial do trabalho, ao passo que a verticalidade se associa aos processos da cooperação.
              Dentre as principais tendências do final do século XX, a globalização é sobretudo fábula e perversidade: (SANTOS, 1996, p.56) “ fábula, porque os gigantescos recursos de uma informação globalizada são utilizados mais para confundir do que para esclarecer (...)”, comungando com o pensamento de Adorno em sua obra da Dialética do Esclarecimento.

Perversidade, porque as formas concretas dominantes de realização da globalização são o vício, a violência, o empobrecimento material, cultural e moral, possibilitados pelo discurso e pela prática da competitividade em todos os  níveis. O que se tem buscado não é a união, mas antes a unificação.

              Daí o autor questiona: Seria, portanto, pela unificação que adviria o fracionamento?
              Ele mesmo responde (SANTOS, 1996, p.58):

O universo é, antes de tudo, um conjunto de possibilidades a concretizar, mas isto é sempre feito de maneira incompleta (...) a regulação mundial é uma ordem imposta, a serviço de uma racionalidade dominante, mas não forçosamente superior.

Conclusão Pessoal

              Neste texto “Os Espaços da Globalização” de Milton Santos é claro, objetivo e crítico, comungando com o pensamento da Teoria Crítica de Adorno.
              Quando ele classifica a globalização como fábula e perversidade aproxima e muito do conceito de Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer, aliás a globalização é fruto desta indústria cultural pois os seu télos (fim) é a barbárie, o que vemos acontecer não é o Esclarecimento ( Aufklãrung) como prometia os burgueses iluministas mas o retorno da humanidade ao mito, isto é, se algum dia nós saímos deste estágio.
         A crítica de Milton Santos é a crítica de Adorno e Horkheimer; por isso o questionamento: a unificação em nome do fracionamento? Mas na verdade é uma afirmação no inverso: o fracionamento como unificação, como Adorno conceituava a padronização do gosto, do belo, do pensar das massas manipuladas e reificadas acabando assim com a individualidade do sujeito. Por isso, a sociedade se encontra multifacetada porque os indivíduos estão multifacetados.
              A regulação mundial é imposta horizontalmente nas verticalidades locais, com uma lógica perversa e dominante.
         Portanto, concordo com Milton Santos nesta visão crítica sobre os espaços da globalização.

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