Artificialidade das Aparências
Gostaria
de externalizar as impressões dos tempos atuais em que vivemos.
Primeiramente, o que impera nas
relações interpessoais é a artificialidade do agir, do falar, do ser. O que
realmente importa é aparecer,
de qualquer forma, em qualquer lugar e tempo, é aparecer nas redes sociais, na internet, nas ruas, no
trabalho, na mídia.
Porque esta ânsia frenética de aparecer?
Simplesmente devido à
supervalorização das imagens em tudo, basta ter um celular com internet, você
está plugado com o mundo virtual, que nos apresenta, nos oferece, nos
impulsiona a sempre querer aparecer mais e mais.
Qualquer um hoje em dia pode aparecer como quiser, onde quiser, se
tratando das redes sociais.
O conceito de aparecer está atrelado à noção de existência. Afinal, o que é
existir?
Tendo como parâmetro, o pensamento
cartesiano: o Cogito ergo sum.
Entretanto, esta proposição já está diferenciada no contexto contemporâneo,
notadamente, para afirmar a existência humana. Eu preciso estar online,
conectado, plugado.
Criou-se uma pseudo necessidade de
querer aparecer para autoafirmação da minha existência. Eu preciso aparecer
para existir. Somente existirei se eu expor minha vida nas redes sociais.
A cultura do simulacro impera nas
relações humanas, esvaziando-se o sentido da própria existência humana. O
artificial é cultuado porque o que nos foi “imposto” por meio da cultura
remanescente da Modernidade, da cultura da aceleração contemporânea, foi o
olhar no devir, na mudança, conforme Heráclito nos dizia que a única coisa mais
estável neste mundo é a mudança. Portanto, o momento é supervalorizado, ao
contrário, a continuidade, a perseverança, o permanecer se esvaecem com a
cultura do hic et nunc (aqui e agora).
Levando em consideração esta
filosofia de Heráclito, o aparecer torna-se
algo eminente, forçado a ser natural, o que na realidade não é tão natural
assim. No entanto, o aparecer serve
como uma explosão da intimidade do ser humano, haja vista, a internet, a
dimensão global da internet, por isso, eu autoafirmarei quando posto fotos,
mensagens, ideias, opiniões, comentários, textos de minha autoria. Enfim,
existe um excesso, uma hiperbolização da imagem, aliás, digo mais, uma
exposição exagerado ao extremo das intimidades.
Todos podem ser celebridades no
mundo virtual, seja no ramo artístico ou não. Eis o cuidado que devemos ter,
pois, seremos alvos de qualquer pessoa que acesse a rede virtual.
A aparência existe no momento, fora
dela ela não é nada, por exemplo: uma fotografia que capta a imagem daquele
momento que ficará gravada. Uma foto não capta o todo, assim a aparência não é
o todo, é apenas um momento singular. Enfim, as pessoas não miram mais o todo,
mas só se preocupam com o presente.
Cresce a geleira da artificialidade
das relações interpessoais, pois, não tenho o compromisso ético de “estar na
pele do outro”, só penso como me defender, como sobreviver nesta luta medíocre
das aparências.
A célere sentença de William
Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão”, hoje seria assim: “Aparecer ou
não aparecer, eis a questão.”
Prof. Ms. Sérgio Augusto Moreira - 21/11/2014 - 17:00h
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